Crítica | Entre Facas e Segredos – O poder da sátira política!

Entre Facas e Segredos

Rian Johnson e poderoso elenco transformam Entre Facas e Segredos em um dos melhores filmes do ano ao misturar mistério e sátira política

Sem dúvidas, Parasita foi um dos grandes lançamentos de 2019, com sua luta de classes levada a uma espiral de loucura que flerta com diversos gêneros. Ainda nesta temática, Entre Facas e Segredos (Knives Out) é o outro lado da mesma moeda do filme de Bong Joon-Ho. Entretanto, a diferença é que o filme de Rian Johnson embarca totalmente na sátira e está menos interessado nessa confrontação direta. Aqui, a própria família tradicional americana é ridicularizada por si só ou pelo próprio formalismo exagerado e irônico de Johnson.

Seguindo o subgênero do “whodunnit” (quem é o assassino?), o detetive Benoit Blanc é chamado para investigar a morte de um renomado escritor de livros sobre assassinatos. Em seguida, todos os membros da família viram suspeitos, incluindo a enfermeira latina Marta Cabrera.

Até acredito que muitos ficarão com a atenção presa na investigação do assassinato em si, que seria a camada mais superficial do filme, e tem uma resolução articulada bem satisfatória por si só e que vai deixando o espectador preso com sua montagem incrivelmente dinâmica. No entanto, Johnson vai além de um simples exercício de gênero.

Entre Facas e Segredos brilha como sátira 

A sátira se faz presente desde a sutil metalinguagem envolvendo a profissão da vítima, e, depois, com Johnson realizando uma direção que homenageia todos os símbolos clássicos do gênero. A montagem não-linear que volta ao passado para montar (e desmontar) o quebra-cabeça; o detetive que fica nas sombras e só aparece a fumaça de seu charuto; os red herrings (pistas falsas).

Toda a família Thrombey é o retrato de um nicho específico da população de classe média norte-americana. Há casos extraconjugais, aproveitadores, blogueiras, militantes, trolls e mimados. Assim, Os atores beiram ao ridículo esticando suas interpretações ao máximo do limite caricatural — principalmente Michael Shannon e Toni Collette. A própria montagem parece ciente do cinismo daqueles personagens e corta suas entrevistas no meio, como se não os levasse mais a sério.

Em uma piada recorrente de Entre Facas e Segredos, cada Thrombey vai confundindo o país de origem de Marta Cabrera, pois para eles a América Latina é homogênea. O texto do filme está muito voltado para a desconstrução dessa bolha cultural em que vive essa família. Até suas próprias brigas são teatrais, pão-e-circo.

Aliás, eles até parecem gostar de todo esse jogo complexo envolvendo a descoberta do assassino, pois não haverá consequências reais para eles.

Até por isso, toda esse embelezamento formalista na direção de Johnson faz o perfeito contraste com a falsa sofisticação que a família acredita ter. Mas, aos poucos, tudo é desconstruído, com todas as resoluções sendo hilárias e que refletem a mediocridade dos Thrombey. O cachorro descobre algum pedaço de madeira que sumiu; uma personagem confunde duas palavras com pronúncia parecida; o detetive assume que não sabe nada.

Naquele ambiente farsesco, tudo vira grande brincadeira. Menos para Marta, a latina que possui sua mãe vivendo ilegalmente na América. É uma atuação forte da promissora Ana de Armas que acompanha o tom mais leve de Entre Facas e Segredos, mas é a única personagem que dá para ser levada a sério.

Portanto, para os Thrombey, Marta é quase invisível e apenas um meio para conseguirem seus objetivos, mas para o público e Benoit, ela é a presença mais viva. Ela é fim. E é isso que aquela família aprende. Ao fim, a pirâmide hierárquica é, literalmente, invertida.

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Entre Facas e Segredos

9

NOTA

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