Antes da Temporada
Há algumas mudanças na terceira temporada de Stranger Things: sai o outono e o estafante ambiente escolar e chegam as intermináveis férias de verão e o novíssimo shopping que toma a atenção dos habitantes de Hawkins.
O que antes era um grupo de garotos jogando D&D, agora é um grupo de adolescentes, passeando pelo shopping procurando presentes de desculpas para suas namoradas. O garoto popular da escola não entrou na faculdade e agora trabalha servido sorvetes no shopping, vestido de marinheiro, outros já arranjaram estágios e começaram a entrar no mundo profissional.
Enfim, o tempo passou (para os atores e seus personagens) e a terceira temporada de Stranger Things não foge disso. Nessa terceira temporada, o Mundo Invertido continua assombrando a população de Hawkins, agora com a adição de russos malvados e hormônios adolescentes para complicar ainda mais a situação.
Trama e Roteiro
Com toques de filmes como “Amanhecer Violento”, “O Enigma de Outro Mundo” e (bastante) “Os Invasores de Corpos”, a nova temporada dá série dos Irmão Duffer reestabelece rapidamente os personagens e seus conflitos: Eleven (Millie Bobbie Brown) e Mike (Finn Wolfhard) continuam namorando, para a loucura de Jim Hopper (David Harbour), agora oficialmente seu pai adotivo. Nancy (Natália Dyer) e Jonathan (Charlie Heaton) trabalham em um jornal local com uma redação extremamente misógina. Steve (Joe Kerry) trabalha vendendo casquinhas de sorvete no shopping com Robin (Maya Hawke, filha de Ethan Hawke com Uma Thurman), e o resto da gangue está aproveitando as férias e se preocupando com os diversos problemas associados com a puberdade.
Depois de uma leve derrapada na segunda temporada, a série volta a ter oito episódios e desenvolve muito bem todos os acontecimentos, novamente separando os personagens em grupos com histórias paralelas que eventualmente se cruzam. Mesmo com tantos arcos narrativos, a série nunca fica confusa de acompanhar e nem se arrasta, em parte pelo equilíbrio da temporada em tratar de questões da narrativa e em questões emocionais dos personagens e também pela forte química que todos do elenco tem.
A cinematografia no geral está muito boa, e fica claro que a Netflix não se preocupou em gastar dinheiro em CG, tornando o design O único ponto negativo fica em algumas cenas relacionadas ao Mundo Invertido, que abusam do uso de luzes estroboscópicas ao ponto de deixar até o espectador causal um pouco enjoado.
Outra qualidade dessa temporada é como é perceptível que não só os garotos amadureceram, mas a série amadureceu também. A violência é mais gráfica (e como eles apanham nessa temporada!), o terror mais gráfico e visceral e os relacionamentos mais intensos. Isso faz sentido, visto que eles estão entrando na adolescência, onde cada pequeno acontecimento parece ter desdobramentos titânicos que irão te marcar para sempre.
Personagens e Atuações
As estrelas nessa temporada são, sem sombra de dúvida, David Harbour e Winona Ryder. Ela faz uma Joyce incrível, trabalhada nos pequenos momentos e com um timing incrível para o sarcasmo. Enquanto David Harbour continua mostrando ser um ator do mais alto calibre, com um controle corporal incrível, raro de se ver hoje em dia, as caretas e o modo que seu corpo (e bigode!) se contorcem quando Hopper está irritado com Mike é fascinante. E a nova temporada dá série da Netflix permite que Harbour trabalhe seu xerife Hopper em um nível dramático mais profundo que as anteriores.
Outro destaque fica para o núcleo do sorvete, composto por Steve, Dustin, Robin e a irmã de Lucas, Érica (Priah Ferguson). O carisma e química da dupla Steve-Dustin já era conhecido (e continua ótimo nessa temporada), mas quem rouba a cena é Robin, a sarcástica colega de trabalho de Steve que faz uma personagem muito bem escrita que deve se tornar uma favorita dos fãs. Priah Ferguson também merece parabéns por pegar uma personagem que parecia unidimensional e um tanto irritante e transforma-lá em uma valiosa adição ao elenco.
Essa temporada também se redime das críticas da segunda temporada que as personagens femininas não conversavam entre si (e não conversavam mesmo). A crescente amizade de Eleven e Max (Sadie Sink) é uma das novidades da temporada e é muito bom ver a Eleven saindo um pouco do seu casulo com Mike e os garotos e finalmente tendo uma amizade normal com uma garota da idade dela. Aliás o episódio em que elas passeiam pelo shopping ao mesmo tempo em que Mike e Lucas também estão lá procurando presentes para elas é um dos pontos altos da temporada, pois dá uma rara oportunidade de ver esse grupo no seu dia-a-dia, sem se preocupar em salvar Hawkins e afins.
Um dos pontos negativos da temporada é o parco uso dos irmãos Byers, enquanto Joyce tem bastante material ao lado de Hopper, tanto Jonathan quanto Will parecem secundários em seus respectivos grupos, sem um grande arco narrativo na temporada ou muitas cenas do seu ponto de vista (Will até tem seus momentos lutando contra a “adolescentização” dos seus amigos, mas é pouco).
Depois dos Créditos
A nova temporada de Stranger Things mantém o espírito nostálgico da série, mas entende que não pode ser um mero repeteco das duas primeira temporadas e busca trazer novidades e chacoalhar o status quo, mesmo que isso possa ser desfeito em dois episódios na (provável, mas não confirmada) quarta temporada.
Por fim, Stranger Things 3 é uma boa temporada de uma série querida do público, ela desenvolve sua história sem se arrastar, consegue dar tempo para seus personagens respirarem e trabalha bem tanto seus momentos de terror quanto de comédia.
VEJA AQUI ALGUMAS CURIOSIDADES DA SÉRIE
Correção: Raquel Severini